sábado, 25 de abril de 2009

No outro dia fui fazer de mim

Acabei por não comentar, e talvez não me estenda por demais.
Mas no outro dia, quando fomos todos fazer de nós para o Tiago Hespanha, repetindo as falas e acções da reunião da véspera, senti-me inicialmente entediada e a cumprir missão. Fazendo o melhor de que sou capaz, sempre. Mas em tédio. Profissional, e genuinamente aborrecida com a jogatina estéril.
Até que se gera algum à-vontade. De repente, nasce um "fazer de mim" mais franco, mais sinceramente como se fosse ontem pela segunda vez, com menos tédio e em repetição graciosa. Bem-disposta - 'Bora lá jogar, talvez faça sentido.
De repente sinto-me na honesta estranheza de um "fazer de mim" incómodo e necessário, toda verdadeira, toda falsa, toda anulada, porque o patamar é outro. Duplicada, logo anulada.
Será que todos os dias da vida faço de mim? E fora o prazer da brincadeira concreta (gira, e tal...), o que é que resta desse jogo de duplicação? (fora uma sensação de leve enjoo, um jacto de bílis espiritual)
Não se desenganem: gostei dessa tarde. E ainda não sei se me levou algures.

1 comentário:

  1. Gato que brincas na rua


    Gato que brincas na rua
    Como se fosse na cama,
    Invejo a sorte que é tua
    Porque nem sorte se chama.

    Bom servo das leis fatais
    Que regem pedras e gentes,
    Que tens instintos gerais
    E sentes só o que sentes.

    És feliz porque és assim,
    Todo o nada que és é teu
    Eu vejo-me e estou sem mim,
    Conheço-me e não sou eu.

    Fernando Pessoa
    Janeiro de 1931

    ResponderEliminar