sexta-feira, 29 de maio de 2009

Hoje...

...não estou contente porque há alturas em que a frustração é maior que o optimismo. Não que me esteja a reduzir à constante necessidade da "palmadinha nas costas", mas sim porque me sinto incapaz de elevar às expectativas dos outros e, principalmente, às minhas próprias. Porque tenho, por vezes, vislumbres do que "é" mas nunca estou lá; nunca sou!

Às vezes aquilo não é um palco. É uma arena. E o mais fácil de concretizar é o mais difícil de alcançar.

Porque sou burra. Já percebo menos do que alguma vez percebi disto de se ser "artista" ou "actriz".

Mas sem dramas. Não me dou com esse género de género!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Diz David Mamet da interpretação no teatro:

It's not the actor's job to embellish the play, but to do something more worthwhile and difficult: to resist embellishing it. It's when one resists the impulse to help that the truth emerges. The great actors I've seen in movies or on stage are capable of being quite still, and letting their uncertainty, fear and conficting desires emerge rather than trying to cover them up with their ideas.

Diz David Mamet da interpretação no cinema:

Actors don't need to put on some extraneous character. Their character exists in the action and the words. The best actors, people like Jimmy Stewart and Anna Magnani, are not pretending to be a character; they're saying the words and letting the story tell itself. On the other hand, that's why Laurence Olivier is terrible in films. He eats up the scenery. The audience ends up paying more attention to the actor's technique than to the story. Looking for a "character" to imitate may be fun for the actor, but it's less fun for the audience. When you listen to Glenn Gould playing Bach, you don't say what great technique he has. You say how great Bach's music sounds. It's the same thing with film acting.

domingo, 24 de maio de 2009

Dizer que a única verdade da cena é a da entrega do artífice. Uma acepção de teatro e de encontro em que o actor não faz de. Faz, é. 

sábado, 23 de maio de 2009

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Entra Hamlet.

Ser ou não ser, é isso a questão,
Será mais nobre deixar que o espírito suporte
Os golpes e as setas da fortuna ultrajante
Ou erguer armas contra um mar de angústias
E, não aceitando, pôr-lhes termo? Morrer, dormir -
Mais nada, e dizer que num sono pomos fim
Ao sofrimento e aos mil choques naturais
De que a carne é herdeira; é uma consumação
Que deve ser devotamente esperada, morrer, dormir!
Ai, mas aqui é que está o difícil -
Pois que sonhos surgirão nesse sono da morte
Quando tivermos despido o tumulto mortal?
É isso que nos detém - esta é a suspeita
Que dá tão demorada vida ao sofrimento:
Pois quem suportaria as chicotadas e as troças do tempo,
A injustiça do opressor, os desprezos do orgulhoso,
A angústia do amor desprezado, a demora da lei,
A insolência das autoridades e os desdéns
Que o mérito paciente recebe dos medíocres,
Se, com um punhal, pudesse
Criar ele próprio a sua paz. Quem quereria
Levar os fardos e gemer e suar sob uma vida exausta?
Mas o terror de alguma coisa que está depois da morte
- País desconhecido de cujas fronteiras
Nenhum viajante regressa - perturba o nosso desejo
E leva-nos a suportar o mal que temos
E a não voar para males dos quais nada sabemos.
Assim a consciência faz de nós covardes,
E assim o primitivo brilho da vontade
Desmaia sob a pálida cor do pensamento.
Empreendimentos de grande alcance e grande peso
Torcem por causa disto o seu caminho
E perdem o nome de acção. Silêncio agora!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

ausente


(Eikoh Hosoe, Flowers of Evil, d'aprés le Fleurs du Mal de Baudelaire)

bem sei que estou ausente deste projecto, agora que ando com o filme da escola nas mãos e sem tempo para mais nada, nem sequer vida privada, pessoal, ou o que quer que se chame. mas quis vir aqui deixar uma coisa qualquer, uma flor... Olá.

primeiro...

"Grotowski has emphasised many times that the most important thing for him is searching for answers to the question: how should one live?"
A. Lechika in Grotowski and His Laboratory

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Porque procuro o actor.

Porque na inexistência de algo melhor, escolho a representação dos melhores gritos da vida. Porque na semelhança de um artista adorado encontro um semblante demoníaco do qual não quero escapar. Porque na infância tudo era belo e neste lugar, ainda que na falácia, invoco-me! Na constante firmeza dos pensamentos, sem saber o que proletarizar, com a perseverança da juventude, porque procuro.
Deitado.

domingo, 10 de maio de 2009

O INOMÍNÁVEL

"Faz tão bem saber-se onde se está, onde se vai ficar, sem se estar lá! Só é preciso estar-se tranquilamente dividido, e deliciado por saber que se é ninguém para sempre".

Samuel Beckett

Há dias...

... em que não sei mesmo ser actriz e a tendência natural de existir não basta à minha satisfação.

... em que não sei nada e esqueço-me de me lembrar...

... em que existir é um martírio e enfeito-me de felicidade.

É favor não desligar o telemóvel






sexta-feira, 8 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Esplêndido ancião

"Do ponto de vista literário, o escritor tem liberdade para falar das personagens, dizer o que quer e o que não quer, mas isso é interdito ao realizador. As personagens, no cinema, não se explicam. Tal como não se explica o significado de um plano, ou de uma cena. Há quem o faça, mas esses só têm um caminho: mudar de profissão."

"A economia é um factor decisivo na arte. Ganha-se depuração e poupa-se tempo. E dinheiro."

"A psicologia interessa-me nos filmes, é óbvio, estamos a falar de personagens. Agora, o que não me interessa de todo é dizer aos actores o que eles devem fazer psicologicamente. Lêem o papel, estudam e deduzem. É tudo. Às vezes perguntam-me porque é que eu misturo actores profissionais e amadores. Resposta simples: é que os bons actores não representam e os amadores também não! Os primeiros já se esqueceram do que é representar e os segundos ainda não aprenderam. Enfim, tudo o que fica no meio não me interessa. A representação é má em si: é isto que quero dizer."

excertos da entrevista a Manoel de Oliveira, por Francisco Ferreira,
in Actual/Expresso, 1 de Maio de 2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Substance and Function

One must know the elements of Substance and Function in the noh. If Substance can be compared to a flower, then Function can be compared to its odor. The moon and its light make a similar comparison. If the concept of Substance is fully understood, then the nature of Function will be naturally comprehensible of itself. When it comes to observing the noh, those who truly understand the art watch it with the spirit, while those who do not merely watch it with their eyes. To see with the spirit is to grasp the Function. Thus it is that beginning actors merely grasp the Function and try to imitate that. Although they do not understand the real principle of Function (that is, the fact that it derives from Substance), they attempt to copy it. Yet function cannot be imitated. Those who truly understand the noh, since they grasp it with their spirit, are able to imitate its Substance. Thus in a performance, Function comes of itself from a successful attempt to assimilate Substance. (...) Substance and Function may seem to represent two independent elements. But in fact, without Substance there can be no Function. Therefore, there are no means with wich to imitate it directly. (...) One must understand that is precisely by attempting to reproduce Substance that the actor can manage to create naturally the appropriate Function. To repeat again, if one truly comes to understand the principle that the imitation of Function cannot become an end in itself, he will evolve into an actor able to truly grasp this crucial distinction between the two. It has been said that "everyone wishes to resemble a master actor, yet no one should try to imitate him". Here, imitation refers to Fuction, resemblance to Substance. In previous times, such attention was not given to these various theoretical terms. Among those performing before, in the older style, however, there were quitea few who managed of themselves to gain high artistic power. At that time, the nobility and the people of high rank took note only of what was good in various performances, but they didnot make it a point to observe the defects. These days, however, their eyes are highly skilled and so audiences have come to observe even the slightest fault, so that if a presentation is not as elegant as a polished gem or a bouquet of flowers, it cannot meet the expectations of a cultured group of spectators. Therefore, there are few artists who are considered to have attained the highest level of success. Because the noh is entering into a period of decline, I am concerned that if our training loses itr rigor, our art will cease to be, and it is for this reason that I have written here an outline of my own understanding of our art. As for the rest, it will depend on the intelligence and artistic skills of the individual actor and should be transmitted directly through oral teaching. Oe 27, (1420) the Sixth Month Zeami

sexta-feira, 1 de maio de 2009

afinal havia outra

gaivota. Fui à feira do livro. Fazer de babysitter, essencialmente. Foi hoje, feriado e dia de manifestações do 1º de Maio. Aquilo estava tão apinhado que fiquei simplesmente a tomar conta da Ana. Eis senão quando, já a caminho do carro, passo pela banca (as barraquinhas a que a organização chama pavilhões) da Cotovia e vejo um livro com uma foto do Tchékhov na capa e com o título A Gaivota. ("Fantástico!"), pensei eu, uma nova edição, nova tradução do russo, porreiro. Estava lá escrito, era verdade, era A Gaivota de Tchékhov, traduzida do russo por um outro sujeito que não a Nina Guerra, chamado Rubens Figueiredo, o livro tinha óptimo aspecto, custava 14 euros numa feira do livro, mas pronto, era a Cotovia, os gajos têm a mania que são design, e fashion, e elites, e pronto, comprei. 
Quando estávamos a jantar, começámos a ver os brinquedos novos, os livros adquiridos essa tarde na feira. "Deixa-me ver a gaivota" e lá vem ela poisar nas minhas mãos, linda, com o foto da capa brutal, com o nosso Anton no meio de uma data de gente de época. ("Deixa-me cá ver como é que este gajo traduziu o indiferentismo na cena Masha/Medvedenko"). Abro o livro e começo a ver as gravuras (tem fotos da primeira encenação no Teatro de Arte de "Moscou"). Não achei muito estranho vir Moscou em vez de Moscovo, pensei que era agora esta insurreição de tradutores do russo, acorrigir os neologismos criados pelos tradutores portugueses durante o estado novo. Mas de repente vejo a palavra "ato". Tipo, "comédia em quatro atos". Ainda forcei a esperança já de si desiludida e discordante q.b. de que fosse uma tradução no novo português do acordo ortográfico... Mas não. Não. Não. ("nãããããããããããããããããããããããããããããããããããõ") - Era uma tradução, uma edição brasileira. ("Não há como dar jeito nisso." - como diz o "Miedviediênko", no lugar do nosso "Quem puder que se arranje")

Ok, fui enganado, o livro não era da Cotovia, eu não reparei quando o comprei. Era mesmo uma edição brasileira. Mas é muito porreira, tem fotos da primeira encenação da peça, com o Stanislavsky no papel de Trigorin e o Meyerhold no papel de Treplev. Acaba por ser engraçado. Na 2ª levo-o para vocês verem. 

Teatro Noh