quarta-feira, 20 de maio de 2009

Entra Hamlet.

Ser ou não ser, é isso a questão,
Será mais nobre deixar que o espírito suporte
Os golpes e as setas da fortuna ultrajante
Ou erguer armas contra um mar de angústias
E, não aceitando, pôr-lhes termo? Morrer, dormir -
Mais nada, e dizer que num sono pomos fim
Ao sofrimento e aos mil choques naturais
De que a carne é herdeira; é uma consumação
Que deve ser devotamente esperada, morrer, dormir!
Ai, mas aqui é que está o difícil -
Pois que sonhos surgirão nesse sono da morte
Quando tivermos despido o tumulto mortal?
É isso que nos detém - esta é a suspeita
Que dá tão demorada vida ao sofrimento:
Pois quem suportaria as chicotadas e as troças do tempo,
A injustiça do opressor, os desprezos do orgulhoso,
A angústia do amor desprezado, a demora da lei,
A insolência das autoridades e os desdéns
Que o mérito paciente recebe dos medíocres,
Se, com um punhal, pudesse
Criar ele próprio a sua paz. Quem quereria
Levar os fardos e gemer e suar sob uma vida exausta?
Mas o terror de alguma coisa que está depois da morte
- País desconhecido de cujas fronteiras
Nenhum viajante regressa - perturba o nosso desejo
E leva-nos a suportar o mal que temos
E a não voar para males dos quais nada sabemos.
Assim a consciência faz de nós covardes,
E assim o primitivo brilho da vontade
Desmaia sob a pálida cor do pensamento.
Empreendimentos de grande alcance e grande peso
Torcem por causa disto o seu caminho
E perdem o nome de acção. Silêncio agora!

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